Cenas da minha vida

 A vida é feita de momentos, e alguns deles a gente se lembra pra sempre. A seguir, algumas das minhas histórias:

Assustei você!

Suíça, inverno de 2005. Estou com uma amiga também chamada Simone num estábulo, onde ela está me mostrando como pentear e arrumar um cavalo. O lugar é grande e, tirando o dono da propriedade e uma secretária sentada lá longe na entrada, está todo deserto. Caminhamos entre as baias olhando os cavalos. Nas partes cobertas, falamos e dá até eco. Como temos algumas tarefas a cumprir e o lugar é grande, nem sempre ficamos ao alcance da vista uma da outra.  Está começando a escurecer quando eu decido engajar numa de nossas brincadeiras recorrentes: a de uma assustar a outra. Como havia sido ela quem tinha me dado um belo susto da última vez, estava na minha vez de retribuir.
 O momento em que ela entra sozinha no banheiro era minha chance. Vou pé ante pé até lá e antes que desse tempo dela alcançar uma das cabines, abro a porta com toda a força fazendo o maior barulhão e grito: A-RÁ!!!
 É quando eu ouço, de fato, um grito de susto - só que não era dela. Era uma outra mulher, muito bem vestida até, de camisa xadrez e bota de montaria. A mulher me olha com cara de "garota, você é doida?" e o pior é que eu nem podia retrucar. Morrendo de vergonha, peço mil desculpas num alemão arranhado e saio dali rápido.
 Estou dando a volta por fora do banheiro quando escuto lá dentro - não podia ser - a voz da Simone gritando: A-RÁ!!!! E mais uma vez um grito - da mesma mulher. Simone havia me visto entrando no banheiro mas não saindo. Então havia esperado o momento que "eu" tinha entrado na cabinezinha para abrir a porta com toda a força e me assustar. Só que quem terminou gritando de susto mais uma vez foi a pobre da mesma mulher!
 O tanto que a gente riu quando nos encontramos e contamos a história uma pra outra foi impagável. E a coitada da mulher nunca mais deve ter voltado naquele banheiro, onde tinham aquelas pessoas doidas que chegavam de fininho e abriam as portas gritando "A-RÁ!"



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Fogo no Bolo

Brasília, férias de julho. Tenho doze ou treze anos. Estou em pé na cozinha de casa com a Lorena. Um bolo está no forno. Conversamos animadamente sobre o que vamos fazer amanhã - provavelmente mais um de nossos "planos infalíveis" para chamar a atenção dos garotos de quem gostamos. É quando percebemos um forte cheiro de fumaça. Nos entreolhamos. A pergunta “será que é o bolo?” paira no ar por alguns segundos até resolvermos conferir se está tudo certo. Abro o forno e o que vejo é um bolo que cresceu mais do que a forma e por isso acabou derramando no forno e agora, de alguma forma, está pegando fogo. Aflita, grito em volume crescente:
- Fogo!! Fogo!!! Fogo!!!!
A Lorena se assusta com a palavra “fogo” e por um momento perde o foco da situação. Passa então a, como eu, pular e gritar aflita:
- Fogo??? Fogo!!! Onde?!?!
E eu, pulando em volta do forno:
- No bolo!! No bolo!!!
- Que bolo?! – ela definitivamente esqueceu do que estávamos fazendo.
- Esse... – eu, meio desconsolada, decidindo se ainda dá pra chamar aquilo de bolo.

Mas nada que um balde d’água não resolvesse.



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Morcego no corredor

Estocolmo, Suécia, inverno de 2003. No meio do corredor tinha um morcego, tinha um morcego no meio do corredor. O que me deixou paralizada, sem ver como eu iria fazer para chegar até a porta do meu quarto. Resolvi bater na porta do vizinho espanhol, que era a que estava mais perto. Expliquei a situação e mostrei o bicho - enorme. Prestativo, ele entrou no quarto para tentar achar uma vassoura - quando o morcego sai voando. Minha reação é pular pra dentro do quarto dele.
Dois amedrontados colocam a cabeça pra fora do quarto relutantes. O morcego está ainda mais perto de nós agora - só que já mais longe do meu quarto. Não achamos vassoura nenhuma. Decido:
- Você vai comigo até a porta do meu quarto, só caso ele comece a voar?
Ele topa. Então nós vamos passo a passo até perto da minha porta. Até o morcego começar a voar. É só então percebo que deixei minha chave na cozinha.
 O morcego está indo de um lado pro outro e então não temos mais como passar pra cozinha. Não tínhamos como entrar no meu quarto nem chegar no do espanhol já que o morcego está no meio. A única opção era bater na porta da japonesa e pedir alguma coisa pra tentar espantá-lo.
 Morcego voando, nós morrendo de medo, batemos frenéticamente na porta da Ayako. Com a calma típica japonesa, ela abre a porta. Encontra nós dois, um falando por cima do outro:
- A bat!! A bat!! (em inglês: Um morcego!! Um morcego!!)
Ela abre o maior sorriso e pergunta:
- Oh, a bird?? (Um passarinho??)
Nós, desesperados:
 - No!! A bat!! A bat!!
Ayako sorrindo ainda mais:
- Oh, a bed?? (Ah, uma cama??)
Nós, fazendo a mímica:
- NO!! A BAT!
Ayako, imitando nossa mímica de bater asas:
- Oh, Bert? (que era um outro cara que morava no corredor)
Nisso o morcego passa voando por nós e vai parar no fundo do corredor. E aí ela:
- My god, get inside. Did you see the bat?? (Meu deus, entrem aqui. Vocês viram o morcego??)

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A colher na Pepsi

Eu devia ter uns 9 anos, a Patrícia (vizinha) 11 e minha irmã, 12. Depois de brincar no hall entre os apartamentos, entramos na cozinha lá de casa com sede e encontramos algo que na época não era tão comum quanto hoje: uma garrafa aberta de Pepsi! Três copos e um pouco para cada uma. Ficaram as três em volta da bancada bebendo naquele silêncio confortável que a amizade permite. Até que eu pego uma colher dessas pequenininhas (de café, acho), coloco dentro do bico da garrafa e digo:
- Imagina se eu soltasse e ela caísse lá dentro?
 Ninguém diz nada. E aí, sem querer, eu solto. E a colher cai. E nós, por alguma razão, achamos aquilo tão engraçado, que terminamos deitadas no chão, gargalhando até a barriga doer.

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O brigadeiro sobrevivente

Colégio Militar de Brasília. Estou com 15 anos, no 1o ano do Ensino Médio. E já sou absolutamente maluca por doces. Tanto que:
 Naquele ano, metade de nossas aulas de Biologia eram dadas no laboratório. O caminho para chegar lá passava em frente a duas das três cantinas que o colégio tinha na época. Cantinas essas com suas vitrines lindas e chamativas. Uma delas vendia brigadeiros enormes que sempre que podia eu comprava. Naquela manhã, estava com fome e quando bati o olho nos brigadeiros, fugi do grupamento (sim, tínhamos que ir "em forma" de um lugar ao outro) para comprar meu brigadeirão. De posse do doce, saí correndo para alcançar a turma que já estava lá na frente. E é quando vejo a cara da professora. Que se já era séria normalmente, estava mais que o normal. Provavelmente porque - de novo - demoramos demais nos deslocando até lá e - de novo - estávamos fazendo mais barulho do que deveríamos.
 Parada em frente à porta do laboratório, a professora dava bronca em todo mundo:
- E em vez de vir direto da sala de aula pra cá, vocês ficam por aí passeando...
Diante daquilo, achei que era melhor não chegar segurando um brigadeiro enorme comprado no meio do caminho. Mas fazer o que com ele? O único lugar que encontrei pra esconder foi embaixo da boina - equilibrando-o cima da minha cabeça.
 O plano deu certo e eu entrei no laboratório como se estivesse tudo normal. Só que a professora continuava por perto e com cara de brava, então achei que ainda estava arriscado comer ali. Tirei a boina com cuidado (brigadeiro embaixo) e a coloquei ao lado do meu caderno.
 Nisso, alguém faz uma piadinha, outro ri alto demais e é o suficiente: a professora vem brava até a nossa bancada, entra do meu lado e começa a dar uma bronca frenética, na qual ela começa a bater a mão na bancada várias vezes. Detalhe: cada vez se aproximando mais da minha boina.
 Tudo o que eu conseguia ver era a mão dela cada vez mais perto da boina, e descendo cada vez com mais força. Era isso. Já era meu brigadeiro. Já era minha boina. E já era meu cabelo depois.
 Mas não. Alguma força divina a fez parar de dar murros na bancada. A centímetros da minha boina.
 Nunca um brigadeiro foi tão gostoso.

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Que bom que ficou claro

Sempre fui de falar durante o sono, e pelo jeito a característica permanece. Quem me contou a seguinte história foi meu marido:


Brasília, 2011. Estou dormindo já há várias horas quando meu marido chega para dormir também. Mas ele não tem espaço para deitar, já que meu corpo está ocupando a diagonal da cama. Ele balança meu ombro e diz:
- Chega pra lá um pouco, dorminhoca.
Entao diz ele que eu me viro muito séria, com a maior autoridade (ainda dormindo) respondo:
- Eu não sou uma minhoca.

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Parabéns pelo tombo


Suíça. Instituto Cultural Brasileiro em Zurique. Tenho 25 anos e estou substituindo para uma professora que faltou, dando aula de Português como segunda língua numa turma que não conhecia. São todos homens, suíços, muito sérios. Me olham com cara de "onde está nossa professora verdadeira". Tento descontrarir perguntando um pouco sobre a vida deles. Então me lembro que estou na Suíça, e que fazer perguntas pessoais só é permitido depois de dez anos de relacionamento ou um pedido de casamento, o que vier primeiro. Tento ficar no "neutro" e ao mesmo tempo trabalhar os tempos verbais. Pergunto ao aluno de braço quebrado como foi que o quebrou, para ver o uso do pretérito perfeito. Resposta:
- Caí da bicicleta, bati braço na calçada.
 Professora feliz com o uso dos verbos abre um largo sorriso:
- Muito bom!!!
Aluno fecha cara achando que gostei de sua desgraça. Na mesma hora emendo:
- Quer dizer, muito mau... Muito mau... Terrível...

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O ovo furtado

 Estocolmo, Suécia, ano de 2003. Estou quebrando a cabeça para fazer meu primeiro bolo de chocolate. Em pé na cozinha que divido com outros dez estudantes, começo a bater, à mão, os ingredientes. Até que percebo que vai me faltar um ovo. (lembrar no futuro: é importante ler receita a  antes de começar a cozinhar, não durante). Levaria bastante tempo até chegar ao mercadinho mais próximo, ainda mais com toda aquela neve lá fora. E agora? O jeito é apelar para os vizinhos. Ou, mais precisamente, para uma vizinha específica, a francesa com quem eu tinha mais intimidade. Corro até a porta do quarto dela e bato. Silêncio. Bato de novo. Nada. Ela não estava. Françoise vivia me pedindo cebolas, dentes de alho, e naquele momento vem em minha mente as várias vezes que ela dizia "Se precisar de qualquer coisa algum dia, pode pegar". De qualquer forma, eu pretendia repor o ovo ainda naquele mesmo dia.
 Ainda um pouco relutante, abri a geladeira e olhei na prateleira dela. Sim, ela tinha uma caixa com cinco ovos. Maravilha. Peguei um e continuei a receita.
 Meu bolo estava assando no forno quando entra na cozinha um sueco com quem eu quase nunca falava. O cara era enorme, vivia de roupa de malhar - acho que lutava boxe - e sempre com a cara fechada. Ele abre a geladeira e de repente fala algo em sueco para o outro, que estava no sofá. Meu sueco era bem básico na época, mas eu podia jurar que tinha ouvido a palavra "ovo". Corro o olho na geladeira, que ele segurava aberta, e é quando percebo a embalagem do chocolate que minha amiga francesa vivia comendo lá, em outra prateleira. Não na que eu havia pegado o ovo.
 Ah meu deus. Que foi que eu fiz? Roubei um ovo do sueco boxeador??
 Ele resmunga alguma coisa pro outro cara e começa a quebrar os ovos restantes num pirex. Pelo jeito faria uma torta. Olha pra mim quase indiferente e pergunta quando é que vou liberar o forno. Eu digo:
 - Ah, em breve. É, é um bolo. Meu primeiro. Uma receita nova, muito saudável. Não leva ovos...


ps1. Bolo assado, fui experimentar e era simplesmente o pior bolo de chocolate que eu já havia provado. Então percebi que em vez de óleo, havia colocado azeite! As embalagens eram quase iguais, e como eu havia dito, meu sueco não era nada bom.


ps2. Então joguei fora o bolo intragável, enfrentei a neve e fui ao mercadinho. Não só devolvi o ovo que havia furtado, como ainda fiz outro bolo. O pessoal da cozinha ficou rindo, dizendo "Isso. Pule de volta no cavalo imediatamente." Mas sim. Eu tinha que fazer aquilo para provar a mim mesma que dava conta de fazer bolos. E eu dava. Meu segundo bolo de chocolate da vida ficou delicioso.
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